Dentro da zona de conforto
Está no ar a moda das viagens em mochila para o outro lado do mundo, de viajar sozinho para encontrar companhia em si próprio e de fazer trinta por uma linha para sair da tão famosa (e tão temida) zona de conforto.
Porque aparentemente é no desconforto que crescemos. É aí que a evolução acontece.
E a zona de conforto vai, aos poucos, sendo a vilã de todas as histórias de superação e desenvolvimento pessoal. De repente, o conforto é sinónimo de estagnação. Como se nenhum sítio onde chegássemos fosse suficientemente bom para lá ficarmos. É sempre preciso querer mais, mexer, sair dali.
É verdade o que dizem: há muito crescimento fora da zona de conforto. Há muita magia, muitas coisas novas e muitas aprendizagens ali à nossa espera. Não nego isso. Mas o que me traz aqui hoje é precisamente o oposto: refletir sobre o quanto podemos, também, crescer dentro da zona de conforto.
Há uns anos eu temia o conformismo - todo este conceito me atormentava: e se eu estivesse, sem consciência disso, a conformar-me com algo? Passava os dias em alerta a pensar que qualquer sensação de estabilidade fosse, tão só, estagnação. Não é suposto querer sempre mais e melhor? Será que só escolhia o confortável porque era a única coisa que conhecia?
Agora sei: confundia o conforto com conformismo e achava que estar bem era, afinal, estar parada. E não me parecia nada bem estar sempre no mesmo sítio.
Com o tempo, fui conseguindo distinguir, dentro de mim, o conformar-me com o escolher ficar. Aprendi que não é preciso fugir do conforto, que o podemos apreciar e aceitar. Percebi que ficarmos dentro dessa zona pode ser uma escolha tão corajosa como decidir sair - e que essa escolha não é conformismo, é uma vitória merecida.
Não precisamos de ir até à Ásia ou caminhar horas sem fim nas montanhas para nos encontrarmos. O que precisamos de saber pode ser descoberto no quotidiano. Na rotina aparentemente banal do nosso dia-a-dia, nos pequenos rituais que criamos e que dão sentido ao tempo que passa. Na conversa com os amigos que já nos conhecem há anos e nas interações com estranhos que acabamos de conhecer. Nos silêncios que assustam, e nos momentos de pausa tranquilos.
Dentro da zona de conforto - esse espaço seguro que com tanto carinho criámos para nós próprios - conseguimos ouvir melhor o que se passa dentro de nós. Podemos perceber o que nos desperta o sorriso e o que nos puxa a lágrima. Com calma, tempo e consciência, podemos crescer sem a pressa de voltar da viagem a dizer que já aprendemos tudo.
É verdade que o desconforto ensina (mesmo que também magoe!) - mas o conforto sustenta. Dá-nos estrutura, uma rede de trampolim - sabemos que se saltarmos temos sítio onde cair. E é dentro do conforto que podemos refletir quando é necessário um momento de mudança.
Afinal, o difícil não é sair da zona de conforto - é saber encontrar o equilíbrio de perceber quando é que devemos ir e, acima de tudo, quando é que está tudo bem em ficar.
Hoje, já não temo o conforto. Sei acolhê-lo como parte necessária - e merecida - daquilo que é o caminho da vida.
Crescer não implica estar sempre em movimento - pode, tão só, saber reconhecer onde faz sentido ficar.
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