Como a fotografia influenciou a pintura
A reinvenção da arte
Até ao século XVIII, os pintores focavam-se, essencialmente, em pintar o mundo como o viam. Retratos reais, cenas do duro quotidiano no campo, ou paisagens agrestes dominavam as telas. O objetivo era capturar a realidade com o maior rigor possível, transmitindo-a através de formas reconhecíveis e detalhadas.
Este cenário começou a mudar com o aparecimento da câmara fotográfica.
A invenção da fotografia foi o resultado de anos (séculos, até!) de observação e experimentação. Curiosamente, o surgimento da câmara em si não foi particularmente revolucionário - uma vez que se bastou com a junção de dois princípios.
Por um lado, a ótica - a conhecida câmara obscura já permitia, há muito, projetar uma imagem invertida numa superfície interior, através de um pequeno orifício por onde entrava a luz.
Por outro, a química. Cientistas descobriram que determinadas substâncias tornavam-se escuras quando expostas à luz.
Assim, os inventores da fotografia usaram esses químicos para gravar permanentemente a imagem formada na câmara obscura.
É assim que, em 1826, surge aquela que é considerada a primeira fotografia da história, pelas mãos de Joseph Nicéphore Niépce.

Vista da Janela em Le Gras
O impacto desta invenção na arte foi profundo.
A fotografia veio libertar os artistas da sua obrigação de pintar a realidade com exatidão. Com a câmara fotográfica, passou a ser possível capturar o real com uma maior precisão e rapidez. Deste modo, os pintores sentiram-se livres para explorar novas formas de expressão, e a arte assim se reinventou.
Surge, no final do século XIX uma nova corrente artística: o Impressionismo. Influenciado por esta e outras inovações tecnológicas (uma delas que dará mote à próxima crónica desta série!), este movimento propôs-se a pintar o mundo de forma subjetiva. O próprio nome desta corrente destaca precisamente isso - os artistas pintavam as impressões que tinham, a cada momento, do ambiente que os rodeava.
Inicialmente, a fotografia assumiu um registo mais documental, deixando à pintura o papel emocional e expressivo da arte. Mas também isso com o tempo veio a mudar.
De facto, a reinvenção da arte com a câmara fotográfica não se limitou à transformação da pintura. Com o tempo, a fotografia afirmou-se como uma nova forma artística, com linguagem e estética únicas.
Os fotógrafos começaram a explorar a composição, a luz, as perspetivas e a textura - e eventualmente a fotografia deixou de ser, como era inicialmente, o espelho da realidade para passar a ser, também, uma forma de expressão.
O surgimento da câmara fotográfica não veio substituir a pintura, mas sim desafiá-la. E nós, espectadores de todas estas belas artes, só ficamos a ganhar com isso.
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Bibliografia:
assets.moma.org/documents/moma_catalogue_2267_300296442.pdf
Role Reversal: How Paintings and Photography Switched Roles in the 20th Century