A cidade como personagem principal
Normalmente, numa narrativa a personagem principal é alguém que desempenha um papel central na história. É a pessoa que enfrenta desafios, toma decisões importantes e é o epicentro da ação que se desenrola ao longo do enredo.
Na semana passada visitei (de novo) Paris, e se dúvidas houvesse, todas se evaporaram: nesta história é a cidade a personagem principal.
Já há muito tempo que Paris se tornou a minha cidade preferida (prémio que, desde Erasmus, começou a ser partilhado com Liubliana, a minha casa durante uns meses), e esta visita foi, sem dúvida, uma reconfirmação desta enorme paixão.
Tudo em Paris nos convida a perdermo-nos pelas ruas sem olhar para o mapa, e usar como Norte a Torre Eiffel que se vê no horizonte, pelo meio dos edifícios altos. O pescoço fica dorido de olhar para cima para nos permitir maravilhar com a beleza e grandiosidade de todas as construções, e as pequenas janelas preenchidas com vasos de flor fazem-nos desejar ali ter morada.




As ruas são, por si só, arte. São como galerias a céu aberto onde a vida quotidiana se desenrola à nossa frente quase sem darmos por isso. E os museus incríveis que por lá existem funcionam como um prolongamento desta arte que vemos na rua. Permitem-nos viajar pela história através da arte (haverá uma melhor maneira?) e deixam-nos perplexos a refletir sobre como tanta arte verdadeiramente boa foi criada.
Nesta última viagem, tive a oportunidade de visitar pela primeira vez o Museu Orangerie, e fiquei a pensar em como tinha de atualizar a minha lista feita numa crónica recente "O Privilégio da Arte Bonita".
Com uma coleção impressionista verdadeiramente impressionável e o acompanhamento de uns pequenos textos que nos permitem mergulhar na mente dos pintores, não demorou muito para este museu ganhar um lugar alto no meu ranking de museus preferidos e me conquistar o coração.




Mesmo com a chuva, Paris não perdeu o seu encanto e tudo o que revi maravilhou-me como se da primeira visita se tratasse. A cidade assume uma personalidade diferente com este tempo, não se deixando desanimar com a meteorologia (como tantas vezes fazemos) e ganha um encanto novo. As cores mais escuras fazem realçar pormenores que se calhar de outra forma passariam despercebidos, como os pontos de luminosidade nos edifícios trazidos pelo dourado, ou os detalhes trabalhados em pedra na borda das janelas de que tanto gosto.
Paris é uma cidade complexa, como comprova a sua densa linha de transportes públicos e a simultaneidade de ações. Tem uma identidade única que nos faz imediatamente reconhecer o sítio onde estamos - pela sua arquitetura elegante, atmosfera cultural, majestosos monumentos e pelas famosas brasseries. É uma cidade que respira história a cada esquina, e que foi o palco de momentos históricos importantes, desde a execução de Maria Antonieta às Revoluções Francesas. Foi um dos primeiros centros artísticos na Europa, e o epicentro de muitas correntes artísticas, como o impressionismo e o cubismo.
Não é preciso olhar com muita atenção: rapidamente nos apercebemos de que Paris é muito mais do que apenas um cenário para as nossas vidas, ou um destino para as nossas viagens. É uma verdadeira personagem principal, com as suas próprias emoções e histórias para contar.


É uma cidade que tem vida própria, e que dá vida a tantas outras vidas. Uma cidade que tem arte na rua e que tem arte nos museus. Uma cidade que tem cultura, que tem um espírito verdadeiramente só seu, e que traz um sentimento especial a quem a visita. Deixa quem por lá passa a querer mais, a sentir que ainda falta alguma coisa para conhecer.
Nesta narrativa, nós somos apenas figurantes que temos a sorte de a nossa história por lá passar.
Paris não é uma cidade - é a cidade, e é a personagem principal.
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