A arte de estar presente
Chega o Natal e com ele o típico cliché (que é como quem diz - a mais pura das verdades) que nos diz que o melhor presente é estar presente. Mas será que isto de estar presente é assim tão fácil? Não é melhor cair no comodismo de entrar num shopping, encontrar à pressa uma qualquer bugiganga, embrulhar com um papel bonito, colocar um laço e dar o assunto por resolvido?!
É que mais difícil do que a arte de dar presentes - saber o que escolher, o que comprar, quanto gastar e se vai agradar - é a arte de estar presente.
Porque estar presente implica tempo que nem sempre estamos disponíveis a dar (e que nenhum dinheiro compra nem nenhuma loja de shopping vende).
Estar presente implica atenção, escuta, paciência. Implica desligar as notificações do telemóvel, adiar tarefas, e ignorar a pressa. É estar com intenção: não olhar para os ponteiros do relógio, fazer de conta que a história repetida é, na verdade, uma novidade, e ouvir não à espera do momento da resposta, mas a escutar mesmo.
A presença pede entrega - pede tempo, dedicação e disponibilidade mental. Pede o esforço - às vezes difícil - da cabeça estar no mesmo sítio que o resto do corpo.
E é por isso que acaba por ser mesmo o melhor presente.
Porque não ocupa espaço na prateleira da tralha lá de casa - mas fica guardado num cantinho especial do coração. Porque apesar de não dar para trocar, também não se perde nem estraga.
Numa época em que tudo é rápido e descartável, oferecer presença é quase uma revolução. É escolher ficar, quando era mais fácil ir embora. É oferecer tempo e paciência quando tudo à nossa volta nos pede pressa.
E assim vamos vendo que os clichés existem porque são mesmo verdade - estar presente é, de facto, o melhor presente.
M
PS: Bom Natal a todos! Espero que possam dar e receber o dom da presença a quem mais gostam ![]()