Tinta em tubos
A reinvenção da arte
O século XIX foi palco de várias revoluções. Na crónica anterior falamos do impacto da fotografia na pintura. Hoje, a revolução tecnológica que trago aqui é outra: a invenção dos tubos de tinta.
Com a possibilidade de transportar pequenas embalagens recheadas de tinta, a forma como os artistas pintavam alterou-se radicalmente.
Mas antes de mergulharmos mais nesta mudança, importa primeiro compreender como é que os pintores produziam as suas obras antes desta invenção.
As tintas eram preparadas manualmente, num processo moroso que podia levar horas. Utilizavam-se fontes naturais com fortes pigmentos - como minerais, plantas ou até animais. A recolha da cor era apenas o primeiro passo: depois, era necessário tornar esses pigmentos em tinta utilizável. Para isso, misturavam-se com "meios", como a gema do ovo, óleo ou água. Cada combinação conferia propriedades distintas à tinta, com diferentes tempos de secagem, texturas e acabamentos.
A dificuldade desta forma de pintar não se limitava apenas à preparação das tintas - o armazenamento das mesmas também representava um grande desafio. Na altura, a melhor forma de armazenar a tinta era uma bexiga de porco selada com um fio. O artista tinha de picar a bexiga com um alfinete para chegar à tinta - mas depois não havia maneira de tapar completamente o buraco. As tintas oxidavam ou secavam rapidamente, o que implicava que os artistas produzissem em pequenas quantidades e as usassem de imediato. Naturalmente, isto limitava o tempo de trabalho do pintor e exigia uma constante repetição do processo.
A Revolução Industrial veio abalar estes métodos tradicionais. Foi em 1841 que John Rand, um pintor americano, construiu um pequeno tubo de metal para armazenar as suas tintas. Esta inovação surgiu por necessidade prática, mas foi o contexto tecnológico da época que permitiu a sua proliferação. De facto, com a Revolução Industrial tornou-se possível a produção em massa e a rápida disseminação dos produtos.
À medida que a tinta em tubos se transportava pelo mundo, a arte foi-se reinventando. Um dos maiores reflexos desta mudança foi o surgimento da corrente Impressionista. Os pintores podiam, agora, sair dos seus estúdios e ir para o meio dos cenários que desejavam retratar. Assim, as telas encheram-se de movimento, de mudança de luz e de uma explosão de cores até antes nunca vista.

Claude Monet
Fonte: Pinterest
A tinta em tubos veio permitir uma representação mais exata da realidade através da pintura - não no sentido de copiar fotograficamente o mundo (já vimos que o aparecimento da câmara fotográfica veio tratar disso), mas sim de capturar com mais fidelidade as nuances das relações e interações sociais.
E a mudança de paradigma não ficou por aqui. Antes da tinta em tubos, a pintura era uma arte restrita às elites, devido ao custo elevado dos materiais e à complexidade da preparação. Com a industrialização, os materiais de pintura tornaram-se mais acessíveis a todos, democratizando o ato de pintar.
Os artistas deixaram os estúdios escuros e formais e tiveram a possibilidade de explorar a natureza e a vida na cidade. Isto resultou em obras mais espontâneas e conectadas com o mundo real.
M
Bibliografia
https://www.smithsonianmag.com/arts-culture/never-underestimate-the-power-of-a-paint-tube-36637764/
https://open-assembly.calarts.edu/the-paint-tube-to-warhol-the-valuing-of-art-in-the-mechanical-age/
