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Designing My Dream Life

30 de Julho, 2025

A reinvenção da arte

A realidade social é um prisma complexo que não pode ser olhado ou analisado apenas de uma perspetiva. E a arte não é exceção. Nunca existiu num vácuo - sempre dialogou com o contexto onde existia, com a sociedade à sua volta e com todas as mudanças políticas e económicas da época.

Há cerca de um ano escrevi, aqui no blog, uma série chamada De mãos dadas, que explorava a maneira como a Arte e a Religião se influenciaram mutuamente, ao longo dos séculos. 

Hoje, o desafio a que me proponho é outro: perceber de que forma as mudanças tecnológicas reinventaram a arte - não apenas nos meios e ferramentas, mas também na própria forma como criamos, partilhamos e experenciámos o que é artístico.

Para entendermos como é que a tecnologia veio reeinventar a arte, é importante começarmos por definir o próprio conceito de tecnologia. Não falamos aqui (apenas) de máquinas, algoritmos ou inteligência artificial. Este termo refere-se a um "conjunto de ferramentas disponíveis para a humanidade num determinado momento do tempo" - estas ferramentas resultam da "aplicação do conhecimento científico para fins práticos, especialmente na indústria."

Podemos até recuar ao período pré-histórico. Quando o ser humano aprendeu a dominar o fogo, o impacto não se limitou à possibilidade de cozinhar alimentos ou aquecer espaços. Agora, era possível iluminar as paredes das cavernas, possibilitando o desenvolvimento da arte rupestre.

Mais tarde, a invenção de novas ferramentas, materiais, a revolução tecnológica do século XIX e a nova revolução do século XXI veio impulsionar novas reeinvenções da arte - mas isso fica para depois.

Vamos ver como a tecnologia esteve sempre interligada com a arte - não como um mero acessório, mas como uma aliada silenciosa que abriu novos caminhos e expandiu todo um mundo de possibilidades. 

A tecnologia evoluiu e a arte reinventou-se. 

M

Bibliografia:

https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2019/634439/EPRS_IDA(2019)634439_EN.pdf

 

28 de Julho, 2025

Dentro da zona de conforto

Está no ar a moda das viagens em mochila para o outro lado do mundo, de viajar sozinho para encontrar companhia em si próprio e de fazer trinta por uma linha para sair da tão famosa (e tão temida) zona de conforto.

Porque aparentemente é no desconforto que crescemos. É aí que a evolução acontece.

E a zona de conforto vai, aos poucos, sendo a vilã de todas as histórias de superação e desenvolvimento pessoal. De repente, o conforto é sinónimo de estagnação. Como se nenhum sítio onde chegássemos fosse suficientemente bom para lá ficarmos. É sempre preciso querer mais, mexer, sair dali.

É verdade o que dizem: há muito crescimento fora da zona de conforto. Há muita magia, muitas coisas novas e muitas aprendizagens ali à nossa espera. Não nego isso. Mas o que me traz aqui hoje é precisamente o oposto: refletir sobre o quanto podemos, também, crescer dentro da zona de conforto

Há uns anos eu temia o conformismo - todo este conceito me atormentava: e se eu estivesse, sem consciência disso, a conformar-me com algo? Passava os dias em alerta a pensar que qualquer sensação de estabilidade fosse, tão só, estagnação. Não é suposto querer sempre mais e melhor? Será que só escolhia o confortável porque era a única coisa que conhecia?

Agora sei: confundia o conforto com conformismo e achava que estar bem era, afinal, estar parada. E não me parecia nada bem estar sempre no mesmo sítio.

Com o tempo, fui conseguindo distinguir, dentro de mim, o conformar-me com o escolher ficar. Aprendi que não é preciso fugir do conforto, que o podemos apreciar e aceitar. Percebi que ficarmos dentro dessa zona  pode ser uma escolha tão corajosa como decidir sair - e que essa escolha não é conformismo, é uma vitória merecida. 

Não precisamos de ir até à Ásia ou caminhar horas sem fim nas montanhas para nos encontrarmos. O que precisamos de saber pode ser descoberto no quotidiano. Na rotina aparentemente banal do nosso dia-a-dia, nos pequenos rituais que criamos e que dão sentido ao tempo que passa. Na conversa com os amigos que já nos conhecem há anos e nas interações com estranhos que acabamos de conhecer. Nos silêncios que assustam, e nos momentos de pausa tranquilos.

Dentro da zona de conforto - esse espaço seguro que com tanto carinho criámos para nós próprios - conseguimos ouvir melhor o que se passa dentro de nós. Podemos perceber o que nos desperta o sorriso e o que nos puxa a lágrima. Com calma, tempo e consciência, podemos crescer sem a pressa de voltar da viagem a dizer que já aprendemos tudo.

É verdade que o desconforto ensina (mesmo que também magoe!) - mas o conforto sustenta. Dá-nos estrutura, uma rede de trampolim - sabemos que se saltarmos temos sítio onde cair. E é dentro do conforto que podemos refletir quando é necessário um momento de mudança.

Afinal, o difícil não é sair da zona de conforto - é saber encontrar o equilíbrio de perceber quando é que devemos ir e, acima de tudo, quando é que está tudo bem em ficar.

Hoje, já não temo o conforto. Sei acolhê-lo como parte necessária - e merecida - daquilo que é o caminho da vida.

Crescer não implica estar sempre em movimento - pode, tão só, saber reconhecer onde faz sentido ficar.

M

16 de Julho, 2025

Quando nenhum cliché nos salva

Lá vamos monte acima à procura de clareza. Ecoa no nosso cérebro o famoso ditado que diz que o importante não é o destino, mas sim o caminho.

E assim subimos o monte, obcecados pelo caminho. À procura de algo que nem sabemos bem o que é. À procura de ganhar espaço interior ao mergulhar no espaço exterior. A ir lá fora para conseguir ouvir o cá dentro.

E sem darmos por isso, no meio de tantos pensamentos, chegamos ao topo. Tiramos uns minutos para refletir e apercebemo-nos que não há clareza, não há respostas, não há paz.

Nenhum cliché nos salvou.

Chegamos ao topo cansados - não da subida, mas do peso das expectativas que tínhamos de encontrar respostas e só termos o silêncio. Esperávamos revelações importantes e ficamos só presos num nó de pensamentos que não nos deixou encontrar mais nada.

Olhamos a vista e tudo está igual - vemos o mesmo, mas agora de um ponto mais alto. Nada se resolveu, nada mudou.

É nesse momento que nos apercebemos - não subimos para encontrar algo lá em cima, apenas para fugir do que estava lá em baixo.

Afinal, isto de subir o monte é mesmo como li algures um destes dias: “a paz que encontras no topo da montanha é aquela que levas contigo o caminho todo”.

M

14 de Julho, 2025

Magia, direito, preguiça e ética

1. Magia

Para mim, que nada percebo de informática, a primeira palavra que me vem à cabeça quando se fala de Inteligência Artificial (IA) é magia. Queria poder-vos explicar como é que, afinal, a Inteligência Artificial funciona. A vertente matemática da coisa, vá. Mas tenho de confessar que nenhuma pesquisa foi frutífera o suficiente para conseguir cumprir esta minha missão.

2. Direito

Cabe-me, então, passar para o Direito - uma vez que neste domínio tenho mais alguma legitimidade para falar do tema.

Já dizia a anedota: os Estados Unidos criam, a China copia e a União Europeia regula. Claro que no domínio da IA não ia ser diferente. O Regulamento Inteligência Artificial foi "o primeiro quadro jurídico abrangente em matéria de IA a nível mundial", publicado em agosto de 2024.

Este regulamento estabelece um conjunto claro de regras baseadas na análise de risco para os criadores de sistemas IA, e faz parte de "um pacote mais vasto de medidas políticas destinadas a apoiar o desenvolvimento de uma IA de confiança" no mercado comunitário.

Mas como cada área do direito não existe num vácuo - a IA acaba por tocar noutros domínios. Por exemplo, se estiverem em causa dados pessoais, o mero cumprimento do Regulamento de IA não é suficiente. É preciso respeitar as obrigações previstas no Regulamento Geral de Proteção de Dados. Por outro lado, a utilização de IA também interfere com o Direito Laboral, impondo obrigações aos empregadores - nomeadamente no que diz respeito à comunicação da utilização de sistemas de IA para, por exemplo, processos de recrutamento.

3. Preguiça

Mas chega de falar de direito. Vamos, agora, falar de preguiça.

Um estudo do MIT vem mostrar que o perigo da resposta rápida e imediata não está na facilidade da solução em si, mas sim naquilo que o nosso cérebro para de fazer quando recebe essa resposta sem esforço. Chamam a isso a "preguiça metacognitiva" - quando o cérebro fica habituado a não se esforçar, entrando, assim, em piloto automático.

Como diz Helena Oliveira, no seu artigo "Cérebro em piloto automático: o perigo do Chat GPT "a literacia digital trouxe ganhos extraordinários, mas também uma nova forma de dependência". É que o Chat GPT não se limita a dar respostas - também se oferece a pensar por nós. E o que é que acontece quando paramos de pensar? 

4. Ética

Mas para além destas questões mais fisiológicas , com os constantes e rápidos desenvolvimentos da IA e todas as suas funcionalidades, parece-me que agora entra uma nova dimensão em jogo: a Ética.

Até que ponto é ético utilizarmos ferramentas como o Chat GPT para nos ajudar em tarefas quotidianas? E a partir de que ponto é que deixa de ser aceitável? Será que estamos a ser inteligentes ao utilizarmos as ferramentas ao nosso dispor que nos aumentam a produtividade, ou estaremos, tão só, a ceder à preguiça intelectual? 

Para os momentos de criação, o famoso dilema da folha em branco - que, vamos admitir, atrasa sempre o processo - desaparece com o surgimento de IA. Mas estaremos a ser honestos ao "entregar" algo que não foi (inteiramente, pelo menos) feito por nós?

Tenho de admitir que sou ávida utilizadora do Chat GPT, mas confesso que quanto mais reflito sobre estas questões menos vontade tenho de o utilizar. Não quero treinar o meu cérebro a não pensar. Não quero ceder ao facilitismo, só por ser mais prático. 

Estamos a viver num mundo onde já não conseguimos distinguir o que é real do que é falso. Torna-se importante parar para refletir que valores estamos dispostos a comprometer e a troco de quê. Esta responsabilidade cabe a cada um de nós. Vamos continuar a ter os olhos fechados?

M

Fontes:

Regulamento Inteligência Artificial | Shaping Europe’s digital future

https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/STUD/2020/641547/EPRS_STU(2020)641547_EN.pdf

https://ver.pt/cerebro-em-piloto-automatico-o-perigo-do-chatgpt/

 

09 de Julho, 2025

Tudo está igual

As semanas passam a correr, e transformam-se em meses. Sem darmos por isso, os meses somam-se e passa mais de ano e, de repente, a última vez que tivemos juntos já foi há demasiado tempo

Os trabalhos mudam, os amores são outros e até a cor do cabelo pode ter sido alterada. Há novas opiniões partilhadas, mesmas maneiras de ver o mundo e diferentes formas de o dizer. Isto de amizades em idade adulta dá-nos muita liberdade, mas às vezes resulta em passar um ano e meio sem encontros.

Naturalmente, depois de tanto tempo passado, o reencontro é feito de gargalhadas, conversas interrompidas, urgências de atualizações e novidades já-não-tão-frescas. Para quê perder tempo com conversas triviais quando o que se quer saber é como vai a vida. E não no sentido superficial da coisa, porque aqui, a honestidade tem o palco principal e o julgamento não entra em cena. É, como dizemos sempre, um espaço seguro - mesmo que às vezes uma confissão sincera venha seguida de uma gargalhada.

Acolhem-se novas pessoas, novas opiniões, novas maneiras de estar na vida. E responde-se com sinceridade à pergunta - "Já algum estranho mudou a tua vida?". Olha-se à volta da mesa: como não?

Desta vez, não há promessas de quando será o próximo encontro. Mas todos saem com uma certeza partilhada.

Tudo mudou desde a última vez - e, por vezes, isso é bem chato.

Só que depois olhamos uns para os outros e podemos suspirar de alívio: aqui, tudo está igual. Que bom.

M

 

PS: Esta crónica quase que é a "parte  2" de uma mais antiga - Reencontros bons. De novo, dedico-a aos meus amigos de sempre. Nem era preciso dizer nada.

07 de Julho, 2025

O processo vs o resultado

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
      No mínimo que fazes. 

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

 

Há dias em que é o processo que me sabe bem. Gosto de aprender, do ir construindo, de ver a coisa ganhar forma. O tempo gasto parece, na verdade, ganho - porque olho para a criação como um fim por si própria. Existem vezes em que o processo é tão rico que o resultado quase deixa de importar.

Mas nem sempre é assim.

Outras vezes, é do resultado que me orgulho. O produto final, o "aqui está". E mesmo que o caminho até lá não tenha sido entusiasmante, ou tenha até sido aborrecido, há algo de tangível no resultado final que tanto me satisfaz.

Isto da criação artística é uma coisa engraçada. Faz-nos romper todas as crenças pré-concebidas, porque a cada criação surge uma nova descoberta. Desafia-nos constantemente. Há dias em que já achámos que sabemos como tudo funciona - e no dia seguinte, vem uma nova criação mostrar-nos precisamente o contrário.

Não sabemos onde vamos encontrar o prazer ao longo do processo - se é no caminho ou se é na chegada. E é aqui que voltamos às sábias palavras de Ricardo Reis, que nos convida a pôr tudo, mesmo naquilo que parece pequeno.

Nunca sabemos onde vamos encontrar aquilo que faz o nosso coração bater mais rápido.

M