Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Designing My Dream Life

30 de Abril, 2024

Um Pensativo Cigarro

Na obra Os Maias, Eça de Queirós presenteou-nos com uma expressão icónica que ficou na cabeça de muitos nósfumando um pensativo cigarro.

É curiosa esta ideia de que podemos exteriorizar as nossas emoções, atribuirmo-las ao que nos rodeia, numa tentativa (quiçá, frutífera) de delas nos desapegarmos. 

Ao atribuirmos sentimentos e sensações a objetos inanimados, somos convidados a refletir sobre a complexidade do ser humano, que se prefere desconectar do que realmente sente, atribuíndo toda e qualquer emoção a algo externo, do que se sentar no desconforto que pode ser nos conectarmos com as nossas verdadeiras emoções.

cigarro pensativo, o livro descontraído, a camisa franzida e preocupada ou a nuvem triste são, tão só, maneiras de nos distanciarmos de como estamos, transferindo este peso todo que é sentir para algo tangível e palpável.

É como estarmos a ver a nossa vida de fora, com os olhos de um narrador heterodiegético que sabe, primeiro que nós, como estamos e em que pensamos. Esta perspetiva de um olhar exterior que nos conhece melhor que ninguém pode ser um pouco desconcertante - mas se nos permitirmos refletir sobre ela tempo suficiente acaba por ser, também, reveladora: mostra-nos a distância que existe entre aquilo que sentimos e aquilo que nos permitimos e admitimos sentir.

É um equilíbrio difícil este de fumar um pensativo cigarro e não deixar que os nossos pensamentos se esvaziem no meio do fumo todo.

M

29 de Abril, 2024

Com um sorriso na cara

É um cavaleiro que se bate com um feio dragão. Chama-se São Jorge.

Tenho muitos desenhos deles, antigos e modernos. Há um de que gosto mais que os outros, não porque seja um melhor desenho, pois não é: mas porque nele, São Jorge está representando com um diabo dum sorriso - está a atacar o dragão sorrindo, alegremente, e disposto a vencer. 

E é assim que se deve combater qualquer dificuldade por mais feia que pareça.

excerto de A Caminho do Triunfo, de Badden-Powell

Perante uma dificuldade, o primeiro impulso será desviar o olhar ou até mudar de caminho, certo? Nesses momentos, em que a vontade é virar costas e arranjar uma luta mais fácil, lembro-me muitas vezes desta imagem de São Jorge a atacar o dragão com um sorriso na cara.

Algo me atrai nesta ideia de que por pior que pareça a dificuldade, por mais chato que seja o obstáculo no nosso caminho, o podemos encarar de frente, colocar um sorriso no rosto e começar a lutar.

Claro que este é um daqueles conselhos que cai na categoria é mais fácil falar do que fazer, mas ainda assim merece ser tido em consideração.

Esta proposta de sorrirmos ao encontrarmos uma adversidade parece quase antinatura: mas depois vamos experimentar e percebemos que este sorriso que S. Jorge nos convida a ter é mais do que uma simples expressão facial, é uma lembrança para o nosso interior que nos recorda o tamanho da nossa determinação e coragem.

E apesar do que dizem as boas línguas da psicologia positiva, reconheço que nem sempre um sorriso na cara nos vai fazer efetivamente ultrapassar aquele obstáculo chato que apareceu no caminho. Mas não nos deixemos enganar - a promessa não é essa. A proposta é apenas enfrentar o dragão a sorrir, mesmo que ele depois nos esmague com um pé.

A verdadeira lição, aqui, é saber que mais tarde vamos poder olhar para trás e lembrar que enfrentamos esse desafio enorme com um sorriso na cara - e quando tudo o resto falha, só isso já é vitória suficiente.

M

26 de Abril, 2024

Falta o fim

A natureza presenteia-nos diariamente com inícios bonitos, que não perdem a sua beleza seja qual for o fim que lhes seguirem. Reconhecemos, apreciamos e celebramos esses momentos belos, mas parece-me que fora do domínio da Mãe Terra já não pensamos da mesma maneira.

Que ideia é esta que temos que só uma coisa completa e terminada é merecedora de ser partilhada? Quando é que começamos a achar que arte, falas e pensamentos inacabados não são igualmente bons àqueles com o tão famoso princípio, meio e fim?

Várias vezes dou por mim a começar algo - um texto, uma colagem, uma pintura - e a não saber depois como a terminar. E esta falta de fim é o suficiente para me convencer que o que fiz não merece um palco. Quase que tenho mais crónicas inacabadas do que ideias soltas prontas para verter num papel. O início parece promissor, as palavras vão ganhando vida própria e  de repente encontram um obstáculo e ficam a meio: a meio de uma história, de uma frase ou de uma lógica que sem fim perde todo o sentido.

Alguns começos incompletos ficam a repousar, na esperança que a vida se encarregue de lhes dar um fim, mas outros vão-se com o vento e perdem o seu significado antes que os consiga ir, a tempo, apanhar. A autocrítica consegue ser muito forte, e de repente damos por nós presos num labirinto por nós criados, sem conseguir encontrar o fim. Andamos para trás e para a frente, escrevemos e apagamos e não se encontra aquele desfecho arrasador.

Mas o que é que torna isto tão difícil de aceitar? Quando aprendemos na escola a escrever, ensinam-nos que um bom texto se divide em 3: a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. Que as coisas não ficam bonitas sem um fim.

Só que depois crescemos, ficamos presos nesse meio do desenvolvimento, andamos aos círculos ou numa linha reta muito grande e acabamos por não chegar a lado nenhum.

E depois? Qual é o mal?

Fica a faltar o fim.

M

24 de Abril, 2024

Quando o coração doer

Quando o coração doer, vou deixar que doa sem que se torne insuportável. Vou sair à rua e apanhar sol, sentir o ar na cara e lembrar-me de como é boa a Primavera. Vou sorrir no meio das lágrimas e quem sabe até chorar de tanto rir. 

Quando o coração doer, vou lembrar-me de todos os motivos que tenho para estar grato, vou deixar-me abraçar e vou aos sítios que me trazem um sorriso. Vou de encontro às pessoas que são casa e que não me exigem que pare de sentir a dor.

Quando o coração doer, vou pensar em todas as outras vezes em que já doeu assim e de como um dia mais tarde acordei sem qualquer dor. Vou conversar com quem me ouve e ouvir com quem falo. 

Quando o coração doer, vou dizer a mim próprio que está tudo bem em estar tudo mal, e que há tempestades nas florestas mais bonitas. Vou encher-me de metáforas para me agarrar à superfície e vou encontrar beleza na flor mais pequenina que vir na rua, só para perceber que tudo passa. Vou ver o mar e perceber que tudo é tão grande e aquele momento é tão pequenino.

Quando o coração doer, não vou parar de acreditar que a vida pode na mesma ser bela. Não vou pensar que é tudo mau, mas vou-me deixar viver aquele mau agora

Quando o coração doer vou dizer em voz alta para conseguir ouvir: a vida não acaba quando o coração dói. A vida continua quando o coração dói. 

E mesmo quando o coração doer, convencer-me que a vida continua a ser bonita.

M

22 de Abril, 2024

A Palavra Certa

Damos voltas à cabeça e fazemos das tripas coração. Damos nós no cérebro e fazemos o pino. Afastamo-nos e aproximamo-nos para ver se algo mudou. Giramos e damos voltas e voltamos sempre ao mesmo lugar.

Procuramos nas entrelinhas e nas coincidências o que dizemos serem sinais. Vemos o que não está lá e agarramo-nos a detalhes que nos dizem o que queremos ouvir. 

Corremos e meditamos e rezamos. Dizemos que andamos atrás da palavra certa.

Aquela palavra que nos vai abanar o mundo todo, aquela que nos vai fazer mudar a maneira como olhamos para o que já tantas vezes vimos. Aquela que vai fazer todo o sentido e nos vai dar todo o sentido que, algures pelo caminho, se perdeu.

E um dia, depois de muito procurar, alguém nos dá a resposta de que estávamos a precisar: a palavra certa, afinal, é uma frase completa. Apercebemo-nos que palavra certa é, na verdade, um conjunto de palavras que se juntam, para nos dizer, sem metáforas nem intenções escondidas, uma verdade dura.

palavra certa é a certeza de que não há fórmulas mágicas. Que não há soluções rápidas. É a perceção que o ditado popular ficou famoso porque tem mesmo razão: o importante é o caminho, e não o destino. Não há atalhos, não há o caminho fácil

palavra certa bem podia ser o que queríamos ouvir - mas com certeza não é o que precisamos de encontrar. O que é necessário - percebemos - é a coragem de continuar, mesmo quando tudo é incerto.

Continuar mesmo quando os planos feitos com calma e tempo vão embora num instante, e continuar mesmo quando não se sabe em que direção ir.

M

12 de Abril, 2024

Meio Caminho Andado

O plano parecia simples: 90 quilómetros desde Santiago até Finisterra. A mochila ia com o mínimo possível e o corpo (e a mente!) preparados para gastar a sola das botas.

Entretanto veio uma chuva enorme, um vento muito forte que lutava contra nós e um granizo de cortar a cara, e então os planos tiveram de se alterar: no total, acabamos por fazer  64 quilómetros.

Apesar das coisas não terem acontecido conforme o planeado, a sensação ao ver a placa que marca o "quilómetro 0" é incrível. E sim, já sei - o importante é o caminho e não o destino, mas tenho de confessar que a chegada ao destino foi espetacular. Foi o concretizar de todo o caminho (literal) feito até então, foi ver o sol depois de dias de chuva (mesmo, isto não é poesia), e foi mostrar a mim própria que fui mesmo capaz.

Quando voltei ao Porto, alguém me perguntou se encontrei o que estava à procura. Sorri. A coisa engraçada disto é que partimos a achar que vamos encontrar resposta para isto ou solução para aquilo, mas depois estamos lá e tudo o que importa é o quilómetro que temos à nossa frente. E se calhar é só isso que precisamos de encontrar: a clareza de saber que o que importa é só o passo que está à nossa frente - na estrada, e na vida.

O Caminho não é sobre encontrar respostas urgentes a uma lista enorme de perguntas que temos - é sobre fazer mais perguntas e mostrar a nós próprios que lhes conseguimos dar a resposta. É sobre encontrar não o que queríamos, mas o que precisávamos. 

E quando os obstáculos literais do percurso são maiores que os mentais que nos impomos, sabemos que conseguimos. Sorrimos ao saber que conseguimos.

 

Para mim, o Caminho foi sobre encontrar (e ter) um prazer enorme no simples ato de caminhar, na coisa mais simples que podemos fazer com os nossos pés de os colocar um à frente do outro. Foi sobre saber que sou capaz, e que o nosso corpo funciona mesmo para nós - mas a nossa mente também! Foi sobre magoar-me no pé ao quilómetro 15 e fazer o resto sempre com o mesmo sorriso (apesar das queixas e das dores). Foi sobre caminhar debaixo da chuva a cantar e a rezar, e saber que fiz o que quis - e não há maior liberdade que essa. Tive a liberdade para decidir partir,  a liberdade quando foi preciso decidir parar - e depois disso tive a liberdade de poder continuar, com uma chuva mais simpática que não nos lavava a roupa toda, só a alma.

E, mais tarde, foi sobre voltar cheia de histórias para contar e responder com um sorriso que sim: encontrei tudo o que, naquele momento, precisava.

M

10 de Abril, 2024

Os ensinamentos do Poeta Panteísta

Alberto Caeiro é o poeta panteísta do mundo das pessoas de Pessoa. Apresenta-nos a Natureza não só como cenário dos seus poemas mas também como local de encontro e comunhão com Deus. Deus é e Deus está na Natureza. Tão simples e tão direto quanto isto.

Mas se Deus é as flores e as árvores, e os montes e sol e o luar, então acredito nele, então acredito nele a toda a hora, e a minha vida é toda uma oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos

E que melhor forma de O ver ou de O sentir do que através dos sentidos? Os seus poemas vêm-nos mostrar precisamente isto: através do recurso ao sensacionismo, Caeiro enche os seus poemas de cenários tranquilos, onde as coisas são apenas o que se vê. Diz que não tem filosofia, tem sentidos, e o sentido da visão assume uma especial importância. Na sua opinião, o essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê e nem pensar quando se vê, nem ver quando se pensa.

Um outro aspeto interessante na sua poesia - e que pode bem servir de lição para a vida fora dos livros - é a recusa do pensamento abstrato. Acredita que as coisas são apenas o que são, não o que queremos que elas sejam: o que nos vemos das coisas são as coisas, porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra? 

Caeiro desencoraja-nos de tentar encontrar significados ocultos, na busca incessante por respostas a perguntas que era melhor não as termos: às vezes ponho-me a olhar para uma pedra, não me ponho a pensar se ela sente, não me perco a chamar-lhe minha irmã. Mas gosto dela por ela ser uma pedra, gosto dela porque ela não sente nada, Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Diz que pensar é estar doente dos olhos e que pensar não é compreender. Ao anular o pensamento metafísico resolve a dor de pensar que afeta os poemas de Pessoa - tão simples assim, certo?

Mostra-nos que os prazeres mais pequeninos da vida são os que a fazem valer a pena ser vivida: outras vezes oiço passar o vento, e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Alberto Caeiro convida-nos a parar, olhar à volta e apreciar a paisagem. Sem intenções de metáforas, com uma linguagem simples e acessível e com adjetivos que nos colocam mesmo no meio daquele cenário. Vem-nos mostrar que o que vemos pode bastar, e às vezes tanto pensar só confunde. Diz-nos que as coisas são como são, e não como gostávamos que fossem. Convida-nos à contemplação da Mãe Terra e reflete sobre como o que está ali à nossa frente é tudo o que naquele momento precisamos. Não importa onde vai desaguar o rio que vemos, importa que ali o estamos a ver.

A sua poesia pode funcionar quase como um manual para a plenitude: a simplicidade da vida encontra-se quando respiramos fundo e olhamos em volta. Diz-nos que a felicidade pode mesmo estar ao alcance de todos - quando aceitamos as coisas como elas são e quando nos limitamos a apreciar o que a Natureza nos dá, sem exigir mais e sem pedir menos.

Acho que todos, a certa altura, precisamos de um bocadinho dos ensinamentos dele.

M

08 de Abril, 2024

Mudança de Planos

Pegamos no mapa, olhamos para o destino final, temos um objetivo, traçamos um caminho.

Podia ser tão simples fazer planos na vida como o é na cartografia. Mas quando chega a altura de traçar um rumo na vida rapidamente nos apercebemos que não o é.

Olhando de frente, a vida começa a parecer uma estrada grande com atalhos feios, ruas bonitas sem saída e uma paisagem incrível à volta que nos distrai do percurso. E por mais planos que se façam - e por mais ação que se tenha nesse sentido - as coisas às vezes vão sair fora do nosso controlo.

Até um certo ponto, temos o direito da decisão do controlo e da ação. Mas depois surge um cruzamento em que o livre-arbítrio parece ir em direção oposta e começamos a ser conduzidos por um eventual determinismo que parece desafiar todo o esforço tido.

E aceitar isto não é aceitar que tudo acontece por um motivo, ou que tudo acontece porque tinha de ser. É simplesmente perceber que a partir de um determinado momento as coisas saem fora do nosso controlo, e não importa o caminho que desenhamos no mapa vamos ter de tolerar fazer uns desvios não planeados.

O que fazer quando a vida vai num sentido diferente daquele para onde a estávamos a tentar levar? Perceber que - ainda assim - somos capazes de a enfrentar. Perceber que o que parece hoje o fim do mundo (que é como quem diz o fim da estrada) consiste apenas num desvio não planeado - que poderá, ou não, ser um sítio mais bonito, mas isso fica para depois.

M

05 de Abril, 2024

Consílio dos Deuses

A viagem dos Portugueses à Índia, narrada na voz de Camões, começa já no largo oceano. Esta técnica de literatura - in media res - é um traço característico das grandes epopeias, que Camões pretendeu (com sucesso, diriam muitos) replicar.

Depois de uma só estrofe, o cenário corta para um plano diferente: o plano mitológico, muito presente e relevante na obra Os Lusíadas.

O poeta optou por introduzir este plano com um primeiro evento que deixa, desde o início, bem marcado o papel dos Deuses: é a eles que cabe todas as decisões sobre as cousas futuras do Oriente

A imagem que nos é transmitida é clara: todos os Deuses estão reunidos, em Consílio para decidir o futuro do povo português. Encontram-se organizados por antiguidade e importância, para ouvir Júpiter - o Padre sublime e dino.

No seu discurso, o Deus Pai caracteriza os portugueses como gente de grande valor, apresenta os feitos passados desse povo, a ousadia do presente e fala muito do Fado - o futuro -que já determinou o que aí vem.

Esta sua intervenção suscita diferentes reações do lado do auditório: uns opõe-se à atitude favorável de Júpiter, outros concordam e vêm em defesa dos portugueses.

Sempre gostei muito desta específica passagem da obra e outro dia, por mero acaso, estas estrofes vieram-me à cabeça e pus-me a pensar sobre como podíamos olhar para isto de uma perspetiva diferente.

O politeísmo já não é a crença predominante e agora, quando muito, o concílio tem assento unilateral - qualquer seja o nome que dermos a esse Deus Destino.

Mas assumindo que temos (pelo menos uma percentagem de) livre-arbítrio, que Deuses temos agora que se reúnem em concílio sobre o nosso Fado? Quem é que aparece a nosso favor e quem é que vai contra o que decidimos?

deus passado junta-se à reunião para remoer os erros cometidos ou traz uma perspetiva inovadora sobre o que passou? O entusiasmo, a antecipação boa, e a possibilidade das infinitas possibilidades de caminho são apresentadas pelo deus futuro? Ou será que este chega com ansiedade e medo do que (ainda) é desconhecido?

deus auto-estima se calhar manda abaixo todas as ambições e planos semi-feitos - ou será que incentiva à esperança e confiança?

Os eventos fortuitos e as coincidências que inevitavelmente vão acontecendo são apresentados pelo deus sorte, e o deus azar vem só para lamentar cada percalço do caminho.

E o deus sabedoria o que faz? Será que nos recorda de lições apreendidas e nos dá conselhos valiosos, ou deixa que aprendamos - de novo - com os mesmos erros?

Tal como os portugueses ultrapassaram mares nunca antes navegados, com a presença (e interferência) constante dos Deuses, também nós atravessamos a vida ainda não vivida sempre com a presença de alguns Deuses que nos fazem companhia - mas que (quero acreditar) podemos decidir quanto é que influenciam o caminho que traçamos.

M

03 de Abril, 2024

O Período de Espera

- É difícil, por vezes, porque queres confiar no seu plano, mas ao mesmo tempo também queres que a tua oração seja atendida.

- Mas sabes que mais? Agora, em vez de pensar na coisa que estou à espera que aconteça, penso mais em como estou à espera que aconteça. Em vez de perguntar a Deus "quando é que vais fazer isto acontecer?", eu tento perguntar-lhe "como é que podes preparar o meu coração para a coisa que te estou a pedir?"

1.jpg

Com mais ou menos , acreditando ou não em alguma religião, o período de espera é algo que nos acaba por afetar a todos. O espaço temporal entre o que pedimos, desejamos ou lutamos por até ao momento em que realmente temos o que tanto queríamos ter é, muitas vezes, longo. E ao longo desse caminho consegue ficar difícil manter a paciência e a confiança no processo, principalmente quando tudo parece ir num sentido diferente daquele no qual queríamos andar.

Assim, em vez de nos focarmos incessantemente naquilo que queremos alcançar, podemos aproveitar esse tempo e energia para nos prepararmos para aquilo que gostávamos de receber. E esta simples mudança de foco pode ser o suficiente para fazer renascer a paciência e desaparecer a ansiedade.

Ao nos questionarmos não apenas quando?, mas também como?, abrimos espaço para aprendermos mais sobre nós e sobre as nossas reações às adversidades. Como é que me posso preparar para o que tanto quero em vez de apenas esperar que isso me caia em cima? Como é que lido com a incerteza? Procuro sinais escondidos ou resolvo pegar no assunto com as minhas mãos?

A proposta é sermos construtores ativos da nossa vida, em vez de meros espectadores passivos que fazem por confiar num plano maior que por aí existe.

O destino pode ser entusiasmante (assim o esperamos), mas não há motivo para o percurso até lá também não o ser.

M