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Designing My Dream Life

31 de Maio, 2023

Em dois sítios ao mesmo tempo

Sabemo-lo: não somos todos iguais - vivemos em realidades diferentes, em contextos distintos, temos relações únicas e (idealmente) fazemos da nossa vida  aquilo que queremos. Ainda assim, acredito que há um problema que chega a todos: a altura de tomar uma decisão. Para alguns, este momento é mais simples do que para outros. 

Podemos ser pragmáticos e fazer decisões com base na racionalidade que conseguimos imputar à situação, ou podemos seguir o nosso instinto e fazer decisões com uma base mais emocional. Da minha perspetiva, quanto mais séria é a escolha, mais difícil se torna este processo. E por escolha séria refiro-me àquela que traz consequências a médio e longo prazo, e nos deixa com um bichinho na cabeça a perguntar "será que vou odiar o meu eu passado por ter tomado esta decisão?".

Sou da equipa daqueles que faz uma lista de prós e outra de contras, numa tentativa de clarificar o raciocínio e descobrir o que realmente quero. A verdade, tenho de admitir, é que nem sempre isso ajuda, porque sou muito boa a defender o caso para ambos os lados. 

Acho que a dificuldade da tomada de decisões resume-se a um simples problema: não conseguimos estar em dois sítios ao mesmo tempo. E perceber isso complica tudo. 

Reconheço: ainda não sei como resolver isto. Apetece-me deixar as decisões grandes às "mãos do destino" - seja lá o que isso for - só para tirar a responsabilidade das eventuais consequências de uma escolha errada e de, no futuro, ressentir o meu eu passado por ter feito uma lista de prós e contras incompleta.

M

 

PS: Qualquer coisa, fujo para um universo paralelo e resolvo lá o problema.

29 de Maio, 2023

Pensos rápidos

Existem problemas onde não existem soluções, e também existem soluções para problemas que ainda nem existem. E depois existem ainda soluções para problemas que realmente existem, mas que só resolvem temporariamente o caos: gosto de lhes chamar as soluções pensos rápidos.

Não vejo mal neste tipo de resoluções: claro que o que todos queremos são soluções permanentes, mas se, por vezes, o melhor que conseguimos arranjar são soluções temporárias, temos de (aprender a) aceitar isso. Tal como os pensos rápidos (aqueles que se usam nas feridas exteriores), as soluções temporárias criam uma barreira protetora e impedem a entrada de outras dores. Passado um bocado, o penso fica gasto e é preciso tira-lo, deixando, de novo, a ferida ao ar - com as consequências que isso traz.

Numa curta ida ao supermercado encontramos uma variedade enorme de pensos rápidos: vemo-los em caixas diferentes, com cores e tamanhos distintos, apropriados para cobrir várias zonas do corpo. Também as feridas internas podem ser (temporariamente) solucionadas com uma variedade enorme de pensos rápidos: um passeio ao sol, um dia fora da rotina, ou até um filme no sofá com o cão ao colo.

Não acho haver mal nenhum neste tipo de soluções: pequenos pensos rápidos que aliviam a dor no imediato enquanto pensamos numa melhor e mais eficiente maneira de resolver o problema a longo prazo.

Do meu lado, posso admitir que tenho utilizado a minha quota-parte de soluções penso rápido, e não consigo ser senão grata por as poder ter.

M

26 de Maio, 2023

A esperança em duas letras

A língua portuguesa permite que com apenas duas letras nasça uma nova palavra e, com ela, a esperança na possibilidade do recomeço, do tentar de novo porque falhamos ou do repetir porque gostamos tanto.

Com apenas duas letras podemos refazer, reeencontrar, reaprender e reaproveitar. E nem precisamos de esperar pelo final da ação para vermos que pode tudo ficar bem: acrescentamos um erre e um é no início da palavra e podemos descansar sossegados por saber que temos todo um novo caminho pela frente - ou, pelo menos, a possibilidade dele.

Aquilo que falam da famosa luz no fundo do túnel parece ser , afinal, a esperança nestas duas letras. E em tempos de incerteza e alguma mágoa, sabe (muito) bem podermo-nos agarrar a isto para conseguirmos respirar de alívio por sabermos que basta uma sílaba para recomeçar.

M

24 de Maio, 2023

O que aprendemos à força

Há uns tempos escrevi aqui no blog sobre como é fácil dar conselhos aos outros, porque os seus problemas são sempre, aos nossos olhos, mais fáceis de resolver. Confia em mim que já passei por isso, é melhor fazeres assim.

Ideal mesmo era aprendermos com os erros dos outros, numa perspetiva um pouco egoísta de evitar a nossa própria queda. Se o outro já foi por aquele caminho e viu que não tinha saída, se calhar nem nos vale a pena sujeitar a ter que chegar ao fim só para depois ter que voltar para trás. (Claro que não há verdades ou soluções absolutas, e o que funciona-para-mim-não-vai-necessariamente-funcionar-para-ti, mas isso agora é irrelevante para propósitos literários.)

O problema, tenho-me vindo a aperceber, é que nos é muito difícil aprender pelas experiências dos outros – afinal, não éramos nós que estávamos lá, naquela dor, naquele tombo. Não foi o nosso nariz que bateu naquela porta. Então, começamos a ter que aprender coisas à força, começamos a ter que ser nós a sofrer e a ir até ao fim do percurso só para perceber que realmente havia outro caminho a seguir.

Se refletirmos, tenho a certeza que encontraremos dentro de nós aquelas lições que aprendemos da maneira difícil. As conclusões a que finalmente chegamos, mas só depois de muito teimar e lutar e insistir. As consequências que inevitavelmente apareceram de tanta insistência (agora, desnecessária) da nossa parte. Mas há sempre o exemplo do vizinho do lado, que já tinha passado por isso, que até já nos tinha aconselhado a ir por outro lado, mas que nós optamos por não acreditar.

É que acho que as coisas funcionam assim: dizemos que gostávamos de nascer ensinados para evitar certos dissabores, mas chega à altura e escolhemos aprender essa lição à força.

M

22 de Maio, 2023

Não é do sofá que vejo as estrelas

Sou escuteira há 16 anos e acho que posso dizer com muita certeza que a maior lição que aprendi neste movimento foi a combater o conformismo.

O desconforto não é, todos sabemos, assim muito apelativo. É mais seguro e confortável o quente da nossa casa do que o frio da tenda a meio da noite. É mais fácil não nos desafiarmos do que passar o dia a caminhar no meio do monte só com um mapa e uma bússola na mão. É mais simples aquecer comida no micro-ondas do que fazer uma fogueira e aventurarmo-nos na arte da cozinha selvagem.

Perguntam-me se não sei isto. Claro que sim! Mas então porque é que escolho o frio, a caminhada ao sol e sem gps, e a comida meia crua? Porque o crescimento, a aventura e as memórias não vêm da nossa zona de conforto. E nos escuteiros aprendi que do conformismo não vem coisa boa nenhuma.

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Há umas semanas fiz uma longa caminhada montanha acima, com uma mochila às costas e uma tenda na mão. Fomos acampar a um sítio tão longínquo da população que nem a estrada dos carros nem a rede do telemóvel lá chegam. Esta aldeia é a materialização da máxima que nos rege, enquanto escuteiros, que diz para levarmos apenas o essencial na mochila. O desapego começou logo aí: como foi apenas uma noite a mochila ia leve, um pijama, uma t-shirt para o dia seguinte, saco-cama, agasalho e uma pequena bolsa de higiene.

O que ninguém nos conta – mas rapidamente descobrimos sozinhos – é que isto do desapego vai muito além dos bens materiais. Tem de haver, também, o desapego emocional. Entramos nas montanhas e os problemas da cidade ficam na cidade. As inquietações, as tarefas por fazer, o stress e o planeamento ao segundo dos dias não têm lugar na mochila.

A mochila tem mesmo de ir quase vazia, para ter espaço para caber tudo o que trazemos de volta: os momentos que rapidamente viram memórias, a (re)conexão connosco e com Deus, a felicidade de perceber que as coisas pequenas valem muito e todas as aprendizagens que, quase sem saber, vamos recolhendo.

Sempre que acordo cedo para um acampamento tenho de combater o pensamento irritante que me diz porque é que aceitamos ir, mesmo? Mas já estou nisto há tempo suficiente para saber que esta pergunta é respondida assim que entro em campo. Quando ponho o lenço ao peito e me sinto uma pessoa capaz, uma pessoa decidida e determinada a enfrentar a preguiça e as (literais) dificuldades do percurso. Quando olho à minha volta e tudo o que vejo é o céu e o verde dos campos (e nesse momento nada mais importa).

 

Às vezes, algumas pessoas não percebem porque é que escolho sair de casa ao sábado de manhã a saber que vou chegar do fim-de-semana mais cansada do que parti.

A minha resposta para elas é simples: não é do sofá que vou conseguir ver as estrelas.

M

11 de Maio, 2023

Os ses da felicidade

Vou ser feliz se arranjar o trabalho perfeitoVou ser feliz se comprar a minha casa de sonho. Vou ser feliz se encontrar alguém que me ame. Vou ser feliz se...

A felicidade não é - ou, pelo menos, não devia ser - condicional. Cair nesta ilusão de achar que vamos, finalmente, atingir a felicidade quando todos os fatores da equação se alinharem é cair num ciclo interminável. De repente, essa condição de que tanto dependia a nossa felicidade verifica-se e rapidamente a substituímos por outra (e agora sim, agora é que vou ser mesmo feliz!).

A felicidade não é - ou, pelo menos, não devia ser - um objetivo de destino. Soa clichê, mas é a verdade: a felicidade sente-se (e conquista-se) ao longo do caminho. São milhares de coisas pequeninas e, ao mesmo tempo,  é coisa nenhuma.

Ideal mesmo (e, admito, um pouco utópico) é não fazermos depender a nossa felicidade de nada externo. Se a conseguirmos encontrar, (pelo menos quase) todos os dias, dentro de nós já ganhamos a lotaria da vida. Sujeitar a nossa felicidade a algo extrínseco tem o seu quê de perigoso, porque a qualquer momento esse fator externo pode-nos ser retirado - E depois? O que sobra?

Em vez de esperarmos pelo próximo grande acontecimento que nos vai deixar a chorar de felicidade, podemos tentar encontra-la diariamente. Sermos gratos pelo que temos por oposição a procurar incessantemente (e até obsessivamente) pelo que não temos (mas que se tivéssemos, aí é que éramos felizes!). Aceitarmos a vida como ela é (sem perder o desejo de lutar pelo que realmente queremos), em vez de constantemente tentarmos mudá-la numa manifestação enorme de insatisfação.

Se calhar é melhor pensar assim: vou ser feliz se assim o decidir.

M

09 de Maio, 2023

A dor dos outros

Há algo de simples e leve que encontramos na dor dos outros e que não descobrimos na nossa. O mesmo se passa com a solução para os seus problemas: é tão descomplicado e claro o caminho a seguir.  

Contudo, se formos olhar com alguma atenção para os conselhos que damos, rapidamente nos apercebemos que estamos perante um dos famosos casos olha para o que eu digo, mas não para o que eu faço. E isto não é culpa de um carácter q.b. hipócrita, que resolve com uma enorme facilidade os problemas alheios, mas lidaria de modo substancialmente diferente com os próprios. Deve-se apenas ao facto de a dor dos outros ser, aos nossos olhos, consideravelmente mais leve - ou, pelo menos, mais resolvível.

Dizemos se eu fosse a ti..., cobertos de um manto enorme de empatia que tão orgulhosamente nos caracteriza. Distribuimos conselhos como se fossemos donos da razão e de toda a sapiência que possa existir, e ainda temos a audácia de atirar para o meio da conversa um uma coisa parecida já aconteceu comigo, vou-te contar essa história.

A empatia é uma coisa bonita, mas dar espaço ao outro para respirar também é. Quando ele quiser, poderá vir ter connosco e pedir o que precisa: um ser todo feito de ouvidos, ou um que terá todo o gosto em disponibilizar a sua mãozinha para ajudar.

M

05 de Maio, 2023

Num universo paralelo

Num universo paralelo, virei à esquerda em vez de à direita. Disse que sim quando todos me aconselhavam a dizer que não. Pensei menos e agi mais. Num universo paralelo, fui muito mais feliz porque tudo correu como não correu neste.

Viver num universo paralelo é viver no se que fica pendente no ar após uma decisão. É passar a vida noutro contínuo de espaço-tempo. Se ficássemos arrependidos, vivíamos no passado, se ficássemos ansiosos e inquietos, estaríamos a viver no futuro. Assim, ficar preso ao se e a todo o cenário que resulta da escolha que não se fez é viver num universo paralelo.

Quando a indecisão surge de novo, outro universo paralelo nasce - e se tivesse arriscado? E, com ele, nasce também toda uma nova série de cadeias de ações-reações que nos leva, inevitavelmente, ao fim pretendido (porque, pelo menos nesse universo, decidimos que temos a plenitude da liberdade - e temos mesmo). 

De repente, damos por nós e temos 20 vidas diferentes em 20 universos diferentes, sem saber qual é o universo onde estamos realmente a viver. Inventamos e corrigimos e fingimos, e tudo se acerta.

Dizem-nos que temos a cabeça na lua, mas mal sabem eles que temos é a cabeça nestes outros universos, porque a lua está demasiado próxima e lá nenhuma dúvida e se? foi resolvida. 

M

03 de Maio, 2023

A mania dos filósofos

Que mania a dos filósofos de tentarem definir tudo!

O problema principal da chamada filosofia da arte é a sua tentativa de definição. Afinal, o que é que torna um determinado objeto arte e outro não?

São várias as teorias que tentam responder a esta pergunta. Umas acreditam que a definição de arte se encontra na emoção que o artista pretendeu transmitir e que o leitor efetivamente recebeu. Outras defendem que a chave para a definição se encontra fora do objeto - por exemplo, algo será uma peça de arte se estiver dentro de um museu (mas quem é que o pôs lá? que critérios seguiu para considerar aquela peça digna de uma parede num museu?). Existem ainda outras teorias que argumentam que a arte não é, nada mais nada menos, que uma mera tentativa de mímica ou imitação de uma realidade já existente.

Como era de esperar, não se chegou a nenhuma conclusão. Todas as teorias têm diversos argumentos a seu favor (como era expectável), mas também lhes são apontadas várias críticas. Ora são teorias muito limitativas, ou muito subjetivas. Ora se focam pouco no espectador, ou demasiado na necessidade de intenção expressiva do autor.

Um dia, o meu professor de piano perguntou-me o que é que era, afinal, a arte. Estive uma semana à procura de respostas na internet, e não consegui chegar a nenhuma conclusão. Sendo sincera, nem acho que seja preciso.

Para mim, a arte é quase tão pessoal como o amor - ninguém o consegue definir, mas conseguimos sentir. E o que para mim pode ser arte, para a outra pessoa não será - e nenhum de nós está necessariamente errado.

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Aqui fica um registo de um quadro de Monet, que tive o privilégio de ver no Schloss Belvedere em Vienna. Não consigo explicar o que senti ao ver este quadro (deve ter sido a tal emoção estética que uma das teorias da filosofia da arte defende).  Não me importa qual a intenção do artista ao pintar esta peça, ou se só é arte por estar num museu. Para mim, foi arte porque me falou ao coração, e eu estava genuinamente feliz a passear pelas salas do palácio.

Percebo esta mania dos filósofos de tentarem definir tudo: é mais confortável e seguro vivermos num mundo com normas e regras.

Ainda assim, sinto que há palavras que são grandes demais e onde cabem tantos sentimentos que não encaixam - nem deviam encaixar - numa curta entrada de dicionário.

M

02 de Maio, 2023

A linha que separa

Qual é a linha que separa a Fé da Ciência? 

Outro dia, num debate, esta questão foi lançada e fez-me refletir. Será que a ciência e o método científico também precisa de Fé? Será que a Fé explica tudo, sem necessidade de recorrer à ciência? Existirá algo que a ciência não explique mas que a Fé resolve?

(Quando falo de Fé não falo, necessariamente, na Fé Religiosa. Porque Fé e Religião são coisas diferentes -  e certamente também haverá uma linha a separar estes dois conceitos.)

Galileu - um cientista que descobriu que o Planeta Terra girava à volta do Sol, e não o contrário - disse uma coisa muito bonita que acho que responde a essa questão:

A intenção do Espírito Santo é ensinar-nos a ir para o céu, e não como o céu se move.

Acho que a linha que separa a ciência da Fé é tão simples como esta. As duas áreas dão-nos respostas, ainda que diferentes.

A ciência dá-nos respostas a perguntas objetivas e estruturadas, como saber a que temperatura a água ferve ou como é que as plantas realizam a fotossíntese. Por outro lado, a Fé dá-nos respostas a perguntas emocionais e valorativas, como saber qual o propósito da vida e como devem as decisões ser tomadas.

No fundo, e por mais que acreditemos na Ciência, acho que vamos sempre precisar da Fé.

Já dizia David Hume: acreditamos que amanhã o sol vai nascer. Não temos qualquer justificação empírica para essa crença, baseamo-nos apenas do hábito e na expectativa de que a natureza continuará a uniforme e constante no futuro como foi no passado.

Pelo menos, para acreditar nisso, temos Fé.

M